segunda-feira, fevereiro 13, 2006

 

MANIAS, manias...


Desafiaram-me a confessar algumas das minhas manias.
É estranho que não seja uma tarefa nada fácil. Afinal que manias tenho?
Sou forçada a reflectir nos meus pequenos gestos de todos os dias.
Aqui vãos os meus hábitos/gostos compulsivos, ... manias mesmo:

1. mania de coleccionar e experimentar receitas de abóbora experimentar novas culturas de salada e legumes no quintal dos meus pais. Eles já não se admiram de nascerem por lá umas verduras estranhas. Depois telefonam-me para me perguntarem "como é que se come aquela espécie de nabo com as folhas tipo couve a nascerem directamente da cabeça"?

2. mania de secar a escova de dentes depois de a usar - se há coisa que eu detesto é ver restos de pasta de dentes espalhados pelo lavatório, nas torneiras cromadas, no espelho, etc.!

3. mania de ir de chávena de café para a secretária, para frente da televisão, para me sentar a ler um livro.

4. mania de passear pela casa enquanto telefono.

5. uma paixão por rosas antigas! Aqui ao lado uma variedade de 1670:
Também aprecio rosas simples, variedades silvestres, p. ex., a rosa
canina. Gosto imenso de compota de rosa, feita do fruto maduro de
algumas variedades.

6. animal preferido: o gato!

terça-feira, janeiro 31, 2006

 

The Power and the Glory

Recentemente emprestaram-me o romance de Henry Graham Greene "The Power and the Glory" (1939) que retrata a atribulada fuga do último padre num período de perseguição religiosa no México dos anos 30. É a descrição da sua passagem por diversas aldeias e pelas situações de necessidade a que acode, descrevendo os seus pensamentos e análise da vida.

Este homem é afligido pela sentimento de que é pecador e de que nada vale, enquanto tenta escapar à captura e execução. O cerco vai-se fechando, o seu desespero interior aumenta. Ele acha-se indigno e incapaz de se arrepender, sente que fora movido pelo orgulho e cobardia. Tem uma filha ilegítima, fruto de um momento de pecado, mas não pode deixar de amar o fruto desse pecado. Possivelmente o Padre José, o que casou e se acomodou à nova situação política, será mais meritório do que ele.

À medida que a narrativa emocionante se desenvolve, o carácter da personagem faz um percurso purificador, tornando-se afinal mais humano, ganhando uma fé mais genuína. Questiona o automatismo dos rituais e sentenças religiosas de outrora, vê claramente que o orgulho, a vaidade e a ambição dominaram grande parte da sua carreira religiosa. Reflecte sobre a fé superficial e obtusa dos beatos nas organizações paroquiais. Infelizmente não consegue ver que o perdão de Deus se aplica justamente a ele, que se considera indigno do perdão; sente que não está suficientemente arrependido e teme morrer sem alcançar a absolução.

Este livro fascinante, objecto de severas críticas por parte do Vaticano, que viu nele um livro crítico averso ao Catolicismo (crítica para a qual não vejo fundamento), é um dos melhores que li ultimamente. Este padre pungentemente torturado pelos seus defeitos, é afinal um sacerdote genuíno, o verdadeiro mártir da fé que não dá por isso!
Um livro que recomendo vivamente. Não faltam oportunidades para reflectir seriamente sobre a nossa vida e a nossa fé.
Boa semana.

terça-feira, janeiro 24, 2006

 

Não valem os bits que gastam


Amigos:

De regresso de Portugal, onde pude assistir a tristes manifestações de pura raiva cegueta protagonizadas na campanha eleitoral, verifico que não é apenas na política que andam ovelhas negras caturras canhotas (também sou canhota, mas só de mão!).

Apercebo-me de que andam por aí entrudos com disfarce de anjo de luz (nesta acepção o Carnaval é certamente milenário), simulando uma conversão ao bom caminho e poluindo as águas cristalinas de blogs que nos refrescam com uma fé saudável e equilibrada.
Incito-vos a destruirem os comentários de origem demente e peço desculpa caso alguém tenha lido algum comentário inquinado num dos meus posts, antes de eu o apagar.

terça-feira, janeiro 03, 2006

 

Naamã e o homo religiosus

Era feriado aqui na Alemanha..., o chamado Dia do Corpo de Deus, dia de procissões, de rituais de bandeiras e muito incenso.
Em simultâneo ouço dos meus colegas na escola (liceu cristão) que há igrejas a fusionarem por razões financeiras, vendendo prédios e propriedades, por estes estarem às moscas e não havendo meios para suportar os custos de tantas instalações. Os prédios de culto, com a sua construção sumptuosa, serão os últimos a serem vendidos, certamente, mas mais tarde ou mais cedo esse cenário estranho tornar-se-á realidade e iremos ter escritórios e centros culturais, museus, etc., onde, noutros tempos, se reuniam crentes...
Mais algumns anos e essa tendência poderá chegar também a Portugal, se as igrejas continuarem no seu teimoso processo de petrificação (por favor, não leiam aqui igrejas dos outros, apenas!).
Não, mas quem quer ouvir mais notícias? (Corro o risco de alguns de vocês pararem de imediato a leitura.)
Talvez um dia no céu os profetas nos contem das suas dificuldades em fazer chegar a mensagem do desastre às suas comunidades!!Chegou-me por e-mail uma mensagem com o desespero típico de quem se agarra a "ritos evangélicos" confundindo-os com o próprio evangelho. Mas a mensagem também tinha muita coisa boa: a crítica às actividades que certas igrejas inventam para fazer as pessoas entrarem nos seus templos.
Caso se tratasse de outro tema, tais tentativas desajeitadas poderiam suscitar um sorriso, mas o assunto é muito sério. Aqui vive-se uma situação idêntica. Esta semana chegaram-me às mãos dois programas especiais de igrejas evangélicas aqui da zona, um dos quais vinha no jornal, com o título " Culto e futebol".
Nos programas constavam: celebração ecuménica, jogos para pequenos e grandes, discoteca, tômbola, exposição de quadros, jogos sem fronteiras, lanche com café, bolos, salsichas, bifanas, música de festas, culto de festa com o musical "José - um sonhador muito porreiro", sessão coral aberta com orquestra, leilão de quadros, culto com o tema "deveis ser doze amigos" (como uma equipa de futebol), entrevista, banda musical, drama, pregação e almoço, convidado especial: um artista de revista, prof. doutor XYZ, que irá analisar a relação que existia entre os discípulos (seria especialista na matéria ou é instrumentalizado como atractivo às massas?). Depois a atenção vira-se para a equipa de futebol alemã, enquanto os bifes assam na grelha.É com tristeza, e acometida de uma certa sensação de impotência que acolho tais panfletos e notícias.

Da leitura da Bíblia ressaltou-me a história de Naamã – em certa medida posso relacioná-la com tudo o que está a acontecer. Não levem a mal, ou então levem mesmo a mal.

A história (II Reis 5) começa com uma menina que na altura certa lança a sua opinião; ninguém se lembraria de perguntar a opinião dessa menina roubada dos Hebreus. (Tal acontece nos dias de hoje também, quem é que pergunta a uma criança a opinião, com o intuito de a levar realmente a sério?) Bom, a dita menina apercebeu-se da triste situação de Naamã e - não vou supor que tivesse claros intentos missionários - simplesmente falou do que seria normal e natural na sua cultura. Em casos semelhantes, o profeta de Deus tinha ajudado, mas mais do que dado uma ajudinha, tinha resolvido o problema com a cura.
Naamã, certamente intrigado, mas levando a sério o que a menina tinha dito, apresentou o caso ao rei. "Não seja por isso, não custará tentar... vai lá" e toca de mover os cordelinhos diplomáticos nesse sentido. Como é de norma, o contacto foi estabelecido com o seu homólogo, ao nível mais alto, ou seja, seguiu uma carta endereçada ao rei de Israel. Como é do protocolo, Naamã não foi de mãos vazias: ouro, prata, e vestimentas sumptuosas seguiam também na bagagem. Até aqui tudo corria da forma normal. Não é assim que se dá prosseguimento às coisas, na lógica dos políticos e detentores de cargos? Não, de momento, em boa verdade não há nada a criticar. Eles realmente pensaram em tudo.

À chegada ao reino de Israel, foi entregue a carta ao rei. Pedia-se ao rei que recebesse Naamã e que o curasse da sua doença. "Só pode ser uma provocação! Desde quando é que o rei cura doenças? Isso não é da minha competência... Trata-se de um pedido impossível – eu não sou Deus – e, como tal, está mais que claro que o intuito da carta é encontrar um pretexto para nos fazer guerra!"

Naamã e o seu rei não faziam ideia de que a cura pelo Deus dos Hebreus não estivesse sob a autoridade real, talvez esperassem que o rei mandasse chamar os profetas e estes se apresentassem, de imediato, "às suas ordens" para executar uma cura. O profeta toma conhecimento do caso e manda vir Naamã até ele.

Com que expectativa ele não terá viajado! Finalmente iria conhecer pessoalmente o homem com os poderes necessários para o curar. O tal homem especial concedia-lhe uma audiência! Naamã iria partilhar do "mistério"... [ainda hoje certos políticos e outros adoram rumar até pessoas especiais para lhes apertarem a mão - sendo fotografadas no acto - e manterem conversações amigáveis] [nós também gostamos de ornar os nosso boletins e programas com personalidades famosas que se converteram - futebolistas, cantores, actrizes - ou que dispensam uns segundos de atenção à nossa comunidade (políticos, por ex.,); em encontros evangélicos, não nos esquecemos de os mencionar pessoalmente nas boas-vindas..., nas conversas da aldeia, não nos esquecemos de referi-los, como quem não quer a coisa, num aparte, ou mesmo apresentando-os como um bom motivo para que o nosso interlocutor se converta...

Falava-se de Naamã...
Mas Deus tinha decidido dar-se a conhecer a Naamã de maneira bem diferente. Misericordiosamente, planeou para ele um tratamento de choque. Que Deus mais esquisito esse dos Hebreus!!! Naamã caiu das nuvens! Não, não podia ser... o profeta não lhe deu a devida atenção, mandou apenas um criado com um recadito... que falta de consideração! Um Deus que não se dá ao "respeito", um Deus sem "honras", sem "recepções solenes" e "condecorações" não pode ser um deus em condições! Não cabe na cabeça de ninguém que Deus possa ser assim! [Que falta de sentido de oportunidade política; tal desperdício de um tão alto dignitário estrangeiro e sua comitiva não aconteceria no meio evangélico de hoje. Era um caso para um cura em directo no programa “Caminhos” – seria uma porta aberta a toda a Síria?]

"Vai e mergulha sete vezes no Jordão" – era a ordem. Estão a ver Naamã a baixar-se e mergulhar na água sozinho? Se, ao menos, fosse a mão "santa" do profeta a mergulhá-lo, certamente com uma oração (sim, tem de haver uma oração, senão falta seriedade e solenidade ao acto...) e, se pelo menos houvesse alguns espectadores para registar o acontecimento... (repórteres? fotógrafos?, um colunista de “ Semeador Baptista”, A Rádio Renascença?)

Naamã não queria crer que a sua aproximação ao Deus todo poderoso (que buscava para ser curado) não fosse acompanhada de ritos próprios, mas, bem pelo contrário, e para seu espanto, exigisse dele tão somente um gesto singelo (de obediência) - uma coisa tão simples que até o enervou e desapontou (teve um ataque de nervos – orgulho ferido?).

O êxito da empresa esteve por um fio, não fosse o bom senso dos seus assessores.Naamã estava prestes a rejeitar veementemente uma fé tão... em bruto..., sim, tão desnudada de rituais – parecia-lhe inconcebível. Um Deus "como deve ser" teria de exigir coisas complicadas, rituais levados muito a sério, hinos sagrados, palavras mágicas... [ao distribuir da ceia, "vindas à frente" com ar contrito, teria de exigir de nós, pelo menos mais meia hora de culto a sós, etc., etc., ah, sem descurar o facto, de que num culto "como deve ser" não poderão faltar as palavras-chave de uma bênção final]... e orações especialmente concebidas para quase todo e qualquer fim [esta semana esteve presente um bispo na abertura de mais um reactor atómico ... mas não precisamos de buscar exemplos tão distantes, basta pensarmos no colorido ritual da bênção das fitas, das mães, do ano escolar, das ofertas, ...].

Voltemos a Naamã: Naamã foi esbaforido e desapontado, porque no repertório deste novo Deus não havia nada de comum com outras religiões (festas, "tômbolas", "sorteios", "juramentos de bandeira", "consagrações disto e daquilo", orações rituais, litanias sagradas, sacrifícios e afins). Esse profeta devia estar a gozar com ele! – ele que tinha feito uma viagem tão longa e vinha carregadinho de ouro e outras preciosidades para ofertar!!! E o profeta nem apareceu para cumprimentá-lo! Desrespeitou todas as regras de protocolo... [bem se vê que não aplicou as tão modernas filosofias de êxito e gestão empresarial à sua "empresa religiosa" – o profeta estava totalmente "por fora" de tudo quanto está em voga em "gestão de igrejas”, com a finalidade de as conduzir ao êxito (sic).]

Então a água, não é água em todo o lado? Está bem, pelo sim, pelo não, Naamã arriscou. [Há alguma semelhança com os dias de hoje em que muitos, pelo sim, pelo não, fazem uma espécie de "seguro de vida" para o além, na eventualidade de afinal existir o além. Quanto custa? Ir aos cultos ou à missa? OK, negócio fechado.]

Ao cumprir a ordem singela do profeta, submetendo-se a um acto racionalmente "ridículo" de se ir banhar nas águas do Jordão Naamã teve sorte por receber esse "tratamento de choque": acabou por dar de frente com o verdadeiro e único Deus. Na verdade, não foi a água do Jordão que o curou, mas sim o próprio Deus!De regresso a casa, com a bênção do profeta, vemos um homem mudado graças ao "encontro de choque" com o verdadeiro Deus!

E eu e tu?
Quem sabe estás a receber um tratamento de choque no momento? Estás desapontado com o rumo das coisas? Não te cabe na cabeça que o Deus, tal como o imaginavas, poderia desapontar-te e deixar que as coisas corressem mal? Tens a impressão de que o "evangelho – seguro de vida" não compensa? Lembra-te de que Deus poderá estar a querer ensinar-te uma lição mais profunda do que tudo o que aprendeste até aqui.

sábado, dezembro 10, 2005

 

Conselhos de Fernando Pessoa

" Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

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